A descoberta da doença de
Alzheimer
Na época do Império sob o comando
de Otto von Bismarck que durou até o fim da Primeira Guerra Mundial, o alemão
era a principal língua dos meios científicos. Universidades e asilos formavam
toda uma geração de psiquiatras alemães. A partir daí, começou-se a classificar as
doenças mentais, não a partir de sintomas isolados, mas de sua unidade clínica
e também o pressuposto de que ao menos parte da etiologia das doenças mentais
era genética ou orgânica.
No dia 25 de Novembro de 1901, a
paciente Auguste D. foi levada por seu marido Karl Deter, para ser internada no
Sanatório Municipal para Dementes e Epilépticos de Frankfurt, após os primeiros
sintomas de demência desde esquecimentos e dúvidas, desleixo com a casa,
descontrole com o dinheiro até chegar a momentos de agressividade. Ela tinha
sido encaminhada pelo Departamento de Psiquiatria Real da cidade por causa das
reclamações dos vizinhos.Tudo isso desencadeado por uma suspeita de traição com
relação ao marido que a deixara abalada e mais ansiosa que o habitual.
O médico que recebeu Auguste
avisou seu chefe, o neurologista Alois Alzheimer(1864-1015), sobre a chegada de
um caso interessante na instituição. O Dr. Alzheimer decidiu entrevistá-la
pessoalmente. As respostas foram sempre desconexas. Um exemplo deste diálogo a
seguir:
§ Em
que rua você mora?
§ Eu
consigo dizer, tenho que esperar...
§ O
que eu perguntei?
§ Isso
é Frankfurt.
§ Qual
é o seu endereço?
§ Waldemarstrasse.
Espere, não, não.
§ Quando
você se casou?
§ Agora
eu não sei. A mulher mora no mesmo andar.
§ Quem?
§ A
mulher onde estamos morando. Sra. G. ! Sra. G.!
§ O
que são essas coisas?
§ Uma
chave. Um lápis. Um livro.
§ O
que eu acabei de mostrar?
§ Eu
não sei.
§ É
difícil?
§ Tão
ansiosa. Tão ...
§ Quantos
dedos tem aqui?
§ Três.
§ Certo.
Quantos dedos eu mostrei?
§ Isso
é Frankfurt... eu me perdi de mim mesma.
Auguste foi
piorando até ao ponto de ser levada para uma sala de isolamento porque o
convívio com outros pacientes também se tornou difícil. Ela passou a
agredi-los.
Auguste morreu
aos 56 anos depois de seis meses completamente desorientada. Cada dia mais
magra e triste. Já não falava nada que soasse coerente, não conseguia mais se
alimentar por conta própria e apresentava surtos de agitação cada vez mais
intensos.
Quando Auguste
faleceu, o Dr. Alzheimer pediu que o diretor do sanatório lhe enviasse os prontuários médicos do caso e
o cérebro da paciente. A dissecação revelou atrofia cerebral generalizada, sem
nenhuma grande lesão aparente. Os vasos sanguíneos revelavam aterosclerose, mas
não apresentavam sinais de derrames. Algumas células, entretanto revelavam
alterações estruturais: as fibrilas estavam mais espessas do que o normal. Elas se agrupavam a outras, também espessas,
formando emaranhados na superfície celular. Em alguns casos, havia a presença
desses densos novelos no lugar do núcleo, e a célula havia se desintegrado.
O Dr.
Alzheimer só foi reconhecido um ano depois quando decide publicar o caso de
maneira reduzida com o título: “ Sobre uma estranha doença do córtex cerebral”
(CASOS CLÍNICOS)